Os Pilares da Terra, livro publicado em 1989, por
Ken Follett, apresenta como pano de fundo o contexto histórico medieval de um período conhecido na história da Inglaterra como
"A Anarquia". Chamado assim, porque, após a morte do
rei Henrique, em 1135, não havia um filho varão que pudesse herdar o trono. Contudo, ele fizera todos os nobres do país jurarem fidelidade a sua filha,
Matilde, o problema é que ela era uma mulher e casada com um francês, por causa disso, a grande maioria dos lordes foi para o lado de seu primo,
Estevão de Blois, e o coroaram rei, expulsando Matilde e sua família da Inglaterra. Condenando, assim, os lordes que mantiveram seu juramento como traidores e iniciando um período de extremo terror para os pobres e impunidade para os ricos que durou cerca de quatorze anos, embora os conflitos armados, disputas e desordem tenham perdurado até 1170.
“Ter fé em Deus não significa ficar sentado sem fazer nada. Significa crer que se terá sucesso se se fizer o melhor possível, sincera e energicamente.”
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A narrativa de
Os Pilares da Terra se passa nesse momento, acompanhando quatro protagonistas ao longo dos anos e entrelaçando suas vidas e desventuras. Além da questão da guerra, que afeta a todos, o grande foco aqui é a construção da monumental catedral da cidade de
Kingsbridge, sendo este o ponto de convergência entre todas as personagens. Nossas protagonistas são:
Tom Construtor, o idealizador da catedral;
Prior Phillip, um monge temente a Deus, mas que não se deixa enganar e fará de tudo para ver a catedral construída;
Jack, um jovem órfão de pai, criado pela mãe na floresta, muito inteligente e com um passado misterioso; e
Aliena, a filha de um dos nobres acusados de traição, que vê sua vida mudar completamente e terá de ser muito forte para superar as adversidades e recuperar a honra da família.
A história começa com a primeira protagonista, Tom Construtor, um homem forte e excelente em sua profissão que, porém, não tem muita responsabilidade, ou mesmo sabedoria. Seu sonho é construir uma catedral desde a base até o fim. Ele não se contenta com sua vida simples e vê as catedrais de seu tempo como edifícios hediondos. Tom quer construir uma catedral bela e que possa tocar o céu. Ele, todavia, não está sozinho: sua mulher está grávida e eles tem mais dois filhos. Após uma discussão com o nobre
William Hamleigh, um dos antagonistas da trama, Tom e sua família ficam desabrigados, sem emprego, sem nada. Na floresta, eles encontram Jack e sua mãe,
Ellen, ambos pessoas deveras misteriosas e intrigantes, pois, a despeito de sua vida rústica e errante, são cultos, sabem ler e escrever em inglês e francês, sendo por isso motivo de muita desconfiança para a família, afinal, na Idade Média, uma mulher letrada que não fosse religiosa ou nobre, era automaticamente considerada feiticeira.
Um
pequeno adendo: o período histórico retratado em Os Pilares da
Terra é chamado também de “Período Trílingue”, isso porque
os pobres falam inglês, os nobres, francês, e os padres, o
latim. Desse modo, Ellen e Jack surpreendem a todos por saberem
francês. A leitura e a escrita também era rara até mesmo entre
os nobres.
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Após o encontro, Tom e sua família partem mais um vez e andam diversas milhas, entram em várias cidades, mas nada de emprego. Eles voltam a floresta e sua esposa acaba dando a luz lá, morrendo por causa do esforço e da desnutrição. Nosso protagonista, desesperado e infeliz toma uma decisão comum para a época: abandona a criança, uma vez que não teria condições de alimentá-la e ela morreria de qualquer maneira
Surpreendentemente, ele se reencontra com Ellen e Jack. A mulher lhe diz que seu bebê foi levado por um padre para o monastério próximo dali. Eles vão até lá, veem que a criança está mais segura entre os religiosos e Tom decide deixá-la mais uma vez. Ellen, sendo a mulher decidida e a frente de seu tempo que é, diz a Tom que quer ser sua mulher, eles se unem e partem mais uma vez para as estradas a fim de encontrar trabalho.
Essa família disfuncional e fora dos padrões da Idade Média anda muito! E quando estão quase desistindo de tudo, Tom finalmente consegue emprego no castelo do
conde de Shiring. Lá, Jack conhece Aliena, a filha do conde, e apaixona-se por ela, mesmo sendo ele um garoto e ela, uma moça de dezessete anos.
Quando a família estava pensando em se estabelecer, vem mais um golpe duro do destino: o conde é acusado de traição, perde todos os seus bens, seu título e é enviado para as masmorras do rei. Sua cidade, Shiring, é massacrada, logo, Tom e sua família começam uma nova peregrinação.
Enquanto isso, lá no mosteiro onde o bebê de Tom será criado, conhecemos o Prior Phillip, um bom monge, ambicioso sem ser inescrupuloso. Ele quer servir a Deus da melhor maneira possível. Entretanto, algumas de suas escolhas afetarão, ao mesmo tempo, positiva e negativamente as vidas das demais personagens. Por causa de uma delas, ele torna-se inimigo de William Hamleigh e do Bispo Waleran, estes dois serão os maiores opositores da construção da catedral e farão de tudo para acabar com o Prior Phillip.
Ao mesmo tempo, vemos o desdobramento das decisões de Aliena também. A briga de Tom com William Hamleigh aconteceu porque o primeiro estava construindo uma casa que seria do segundo e de Aliena, mas a moça não quis casar-se com ele, humilhando a família do rapaz, que jurou vingança. Eles realmente conseguem vingar-se e o pai de William torna-se o novo Conde de Shiring. Infelizmente, isso não é o suficiente para o antagonista: ele violenta Aliena de todas as maneiras possíveis e a deixa ao rés do chão, a jovem, contrariando sua criação de lady, decide fazer algo para mudar sua situação e acaba prometendo ao pai moribundo que não descansará até fazer o irmão mais novo, Richard, também conhecido como "bonecão de Olinda", um conde e restaurar sua honra.
Ao longo dos anos essas personagens passam a interagir entre si e a se ajudar, pois, a catedral de
Kingsbridge é importante para a prosperidade de todos, enquanto isso, os antagonistas tentam a todo custo impedir o êxito de sua construção. E diga-se de passagem, a crueldade delas não tem limites...
Com toda a certeza a narrativa criada por
Ken Follett é magistral. São mais de novecentas páginas, divididas em seis partes e cada uma delas tendo entre três a quatro capítulos, que passam sem que o leitor sinta, uma vez que a narração é deveras envolvente e nos faz querer saber como nossos protagonistas estão e se tudo dará certo no final. Não há muitos momento de calmaria. Quando pensamos que tudo está bem, vem a mão do destino e lança mais uma desgraça na vida dessas pessoas, como se fosse mesmo a mão de Deus, incitada pelo Diabo, tal como na história de Jó...
Ademais, é preciso dar um crédito especial as personagens femininas da trama: todas são empoderadas e lutam contra as adversidades de seu tempo e de sua condição com muita garra e sagacidade. O ponto alto da escrita de
Ken Follett é o fato dessas mulheres serem plausíveis, você realmente acredita ser possível tudo o que elas fizeram, não é nada mirabolante, apenas força de vontade mesmo e um pouco de sorte.
Sem dúvidas, a escolha do autor de trazer, apesar do contexto medieval, personagens femininas pró-ativas e inspiradoras, torna
Os Pilares da Terra mais interessante e arrebatador do início ao fim. Sem falar na relação entre Aliena e Jack que fará os adoradores de romances suspirar... Por esse motivo, é fácil concluir essa leitura, apesar de suas mais de novecentas páginas, pois, o leitor só consegue parar nos poucos momentos em que aparentemente tudo está bem, logo, esta leitura está mais do que indicada a todos que gostam de dramas históricos, romances cheios de reviravoltas e, claro, a tão conhecida luta entre o bem e o mal. Nessa disputa, quem vocês acham que vence?