.6 de maio de 2016

O Som e a Fúria - William Faulkner



[...] "É uma história contada por um idiota, cheia de  som e fúria e vazia de significado." [...]

Uma das obras mais conhecidas de William Faulkner, O som e a fúria foi, também, sem sombra de dúvidas, um dos romances mais difíceis que li até hoje. 
A história em si é muito simples: nos é contada a trajetória e decadência dos Compsons, uma família sulista que brilhou no período da Guerra da Secessão e que com o passar dos anos foi perdendo seu dinheiro, prestígio e membros. Mas, a maneira como o autor faz a narração dessa história é o que traz uma série de dúvidas, dificuldades e até mesmo desistências em alguns casos. 
Antes de falar a respeito desses dados técnicos é preciso entender que esse livro foi escrito durante o período Modernista e das Vanguardas Europeias, logo, Faulkner teve uma série de influências de diversas ideologias e escolas literárias e acabou fundindo um pouco de tudo em suas obras, daí a "confusão" para o leitor. 
Agora, falando da narrativa, esta é dividida em quatro momentos que possuem quatro narradores diferentes, temos como tempo cronológico o fim de semana de Páscoa de 06, 07 e 08 de Abril de 1928 e o dia 02 de Junho de 1910, no entanto, o tempo psicológico é enorme e se estende por mais de vinte anos da história desses narradores e de outras personagens. 
Leia novamente o período que coloquei no início da postagem, você sabe de onde ele foi retirado? Entendeu seu significado? Pois ele tem tudo a ver com essa obra. A linha que trouxe é a última da fala da personagem Macbeth no ato cinco, cena cinco da peça homônima de Shakespeare. A personagem faz, depois de saber da morte de sua esposa, uma reflexão a respeito da vida e da morte e do papel da humanidade em tudo isso. Faulkner utilizou-se dessa última linha para construir todo o enredo de O som e a fúria porque aqui nós temos três narradores que conseguem ser "idiotas" dentro de seus núcleos e acabam por tomar atitudes, ou simplesmente existir por absolutamente nada. Não entendeu? A gente tenta explicar... 
O primeiro foco é de Benjamim, uma personagem que narra de maneira extremamente complexa, visto que ele sofre de doenças mentais e não entende muito bem o que se passa ao seu redor e alguns elementos fazem com que ele tenha reminiscências e acabe nos tirando do tempo cronológico e entrando no psicológico, onde ele e seus irmãos, ainda crianças, estão tentando entender o funeral da avó, quando adolescentes acabam por ter problemas financeiros e morais por causa de algumas atitudes da irmã Caddy (favorita de Benji) e que fazem com que ela vá embora. Nesse episódio é muito difícil entender o que é real e o que invenção de Benjamim e ele não nos dá grandes informações do que aconteceu no passado. 
No segundo foco, o de Quentin, filho mais velho dos Compsons e irmão de Benjamim, nós já vemos um desenrolar maior dessa crise familiar. Quentin nos mostra viver atormentado por não ter correspondido as esperanças depositadas nele, nem por ter protegido a honra da irmã que acaba por se apaixonar por um mau-carácter e engravida sendo solteira, algo que na época era imperdoável. Nosso narrador está sempre se culpando por isso e até tenta, em um momento de desespero, salvar a honra da irmã dizendo ao pai que eles cometeram incesto e que o filho é dele, mas ninguém acredita e ele tenta confrontar o amante da irmã, e acaba muito ferido e a própria lhe diz que tudo isso é desnecessário, ela não foi estuprada, nem enganada, tudo o que fez, fez porque quis e ele nada tem a ver com isso. Ainda assim, Quentin não se perdoa e só posso dizer que esse dia, 02 de Junho de 1910, é o mais importante de sua vida. 
No terceiro foco, temos uma narração muito mais linear e esta chega a ser um bálsamo para todo aquele fluxo de consciência! O problema é que a personagem que narra essa parte é de longe a criatura mais desagradável que Deus deixou na Terra... Jason, penúltimo filho dos Compsons, é uma pessoa mesquinha, má, rancorosa e vingativa. No presente, ele é o provedor da família (que decaiu há muito), trabalha em uma loja e rouba o dinheiro da irmã mais velha, Caddy, e trata muito mal a sobrinha, Quentin (sim, ela tem o mesmo nome do tio...) Dentro desse tempo, ele nos conta que perdeu uma ótima oportunidade de emprego por causa da gravidez da irmã, além de ter muita inveja pelo fato do irmão Quentin ir a Harvard e ele não, além de não entender porque a mãe não permite que ele mande Benjamim ao sanatório. 
Por tratar muito mal seus familiares e se sentir superior as outras pessoas da cidade, não é bem quisto por ninguém e quando sua sobrinha foge com um artista circense e leva todo o dinheiro dele ( que na verdade é dela, pois é o dinheiro que ele roubou de Caddy), Jason percebe que foi feito de idiota por uma garota de quinze anos e que todas as privações e enganações não resultaram em nada... 
Percebam que essas três personagens levam suas vidas e têm motivações tolas para prosseguir e no final, nenhuma delas consegue ser "bem-sucedida", ou ter um desfecho "feliz"... 
Como disse no começo, lembra? Vamos lá! Foco! Já está acabando! Existe um quarto episódio e este centra-se no domingo de Páscoa e conta com um narrador onisciente (aquele que tudo sabe e tudo vê). A professora Munira Mutran (FFLCH-USP), em uma conversa para a Univesp- Tv, disse que o autor traz esse novo narrador para mostrar ao leitor a veracidade de tudo o que foi relatado até ali, para que nós não desconfiemos dos irmãos. Aqui, a personagem central é Dilsey, empregada negra que acompanhou toda a trajetória dos Compsons e representa algo que está além das adversidades, ela representa (isso é grifo meu) uma espécie de metonímia da humanidade e mostra que nem todos são vencidos pelos problemas, ou corrompidos e que ainda podemos ter uma esperança de viver plenamente. 
Ainda há um apêndice no qual Faulkner apresenta a origem dessa família e o desfecho das personagens que encontramos no livro. É claro que não coloquei nem metade das minhas considerações a respeito dessa obra e nem poderia, afinal, o texto ficaria gigantesco e até mesmo confuso... O que posso dizer além de tudo isso é que O som e a fúria é um livro desafiador e que precisa de dedicação e algumas leituras de apoio... Mas tudo vale a pena quando você chega ao final dessa narrativa e compreende a mensagem do autor e a complexidade do pensamento e da vida humana. 

[...] "Acredito que o homem não vai apenas resistir, ele vai sobreviver." [...] 

- trecho do discurso de Falkner citado pela professora Munira Mutran.

12 comentários:

  1. Excelente resenha do livro, li-o há vários anos atrás e então referi que é daquelas obras que se ler diversas vezes vai sempre descobrir coisas diferentes... mas reconheço entrar nesta obra ao longo do primeiro capítulo e pela primeira vez não é mesmo nada fácil, mesmo assim adorei o romance.

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    1. Obrigada, Carlos! É uma narrativa difícil, mas vale a pena ser lida e comentada! Ouvi e li muita gente dizendo ter desistido, ou quase desistido. Não tive essa inclinação, mas reconheço que demorei mais de um mês para lê-lo e li duas vezes as primeiras duas partes.

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  2. Depois de ler isso, eu me conformo, sou um leitor médio.

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    1. Ah. não! Imagina! O livro exige dedicação, se você tiver isso e bons textos teóricos que te direcionem, você consegue terminar a leitura e ter uma boa compreensão dela, afinal, é um livro e eu acredito que não exista nenhum livro que não possa ser lido e compreendido, há aqueles mais fáceis e os difíceis. O som e a fúria se encaixa na segunda categoria. Se tiver tempo, leia que você vai gostar! ^^

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  3. comprei esse livro num sebo outro dia mas ainda não tive oportunidade para fazer a leitura... mas pretendo conhecer a escrita de Falkner ainda esse ano... ele me parece meio confuso pela linearidade, mas posso iniciar com outra obra dele e se gostar, emendo esse livro ^^
    bjs...

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    1. Oi, Valéria! Então, a professora que cito na postagem (Munira Mutran) aconselha que comecemos a conhecer Faulkner através dos contos e só depois façamos a leitura dos romances. Acho que essa ideia é boa para se acostumar com a escrita dele! ^^

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  4. É um livro que chama minha atenção há tempos. Ainda não o comprei, mas pela resenha o livro possui personagens que traçam sínteses fortes da vida humana. E como você percebeu, " a complexidade do pensamento e da vida humana".

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    1. Vale muito a pena adquirir essa obra! Foi uma ótima leitura e, apesar das primeiras dificuldades, deve ser lida com certeza!
      Obrigada pelo comentário!

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  5. Oi, estou querendo ler esse livro há algum tempo e sua resenha só me incentivou, já que nunca tinha visto resenha sobre esse livro antes e achei a historia bem interessante e bem desenvolvida. Com certeza lerei ainda nesse ano.
    bjus

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    1. Oi, moça! Você nem sabe o quão feliz fiquei ao saber que contribui para que você tivesse ainda mais interesse por esse livro! Obrigada pelo comentário e espero que tenha uma ótima leitura! ^^
      Bjs

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  6. Não seria mau-caráter ao invés de mal- caráter?

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