.26 de maio de 2010

Conto: Um pobre velho

Deitado ele fitava o teto, a enfermeira acabara de acordá-lo para tomar seus remédios. Faziam exatos quinze dias que estava internado naquele hospital e até o presente momento a única pessoa que entrara em seu quarto além da enfermeira fora o médico, eles diziam que sua filha sempre vinha visitá-lo, no entanto ela nunca o encontrava acordado. Ele sabia que eram apenas mentiras, via isso no olhar piedoso e ao mesmo tempo profissional do doutor, um olhar que dizia: " - Pobre velho! Teve um enfarte, está aqui a quinze dias e ainda ninguém! Pobre velho.
Mas era exatamente assim que ele se sentia. Um pobre velho. Seus filhos não se importavam nem um pouco com sua condição... Pobre velho! Fadado a passar seus últimas dias de vida sozinho.
Pobre velho! Que quando era novo casou-se e descasou-se com várias mulheres, teve filhos e os abandonou para serem criados pelo mundo.
Pobre velho! Que nunca atendia a seus filhos, quando estes tentavam encontrá-lo
Pobre velho! Que percebeu o erro que cometera tarde demais ao descobrir que seu filho mais velho iria se casar e não o convidara.
Pobre velho. Que agora estava ali, deitado naquela cama de hospital tendo como companheiras a solidão e o remorso.
Acordou. Olhou em volta de si e surpreendeu-se por não ter a enfermeira a seu lado e sim sua filha, Camila.
Como poderia explicar sua relação com Camila?
Ela não era sua filha. Era filha de sua última esposa e mesmo assim ela era a única que sempre estivera a seu lado e cuidava dele com amor e dedicação, talvez, pensou ele, ela fosse assim por tão ter sido abandonada quando criança.
Ao ver o pai acordado Camila explicou que não pudera visitá-lo antes pois viajara com seu marido para um congresso nos Estados Unidos e acabara de chegar, no entanto assim que fora informada de sua internação ligou imediatamente para Betina e pediu para que esta cuidasse dele! Não conseguia acreditar que Betina o abandonara!
Betina era sua filha caçula e era a mais bonita também,(era sua favorita)era muito parecida com ele quando mais moço: fria, insensível não se apegava a ninguém, e fazia apenas o que lhe convinha e nada mais importava. Ela não era como os outros que imploravam por sua atenção, não, Betina era dona de si e como ele acabaria seus dias de vida sozinha.
Enquanto perdia-se envolto nesses pensamentos Camila falava no quanto as crianças (seus netos) ficaram preocupadas com ele. Ela precisava ir embora... e ele sabia que por mais que ela o amasse tornara-se um fardo muito pesado não apenas para ela mas para toda sua família, disse- lhe que podia ir se quisesse mas antes fez um ultimo apelo, pediu-lhe, ou melhor implorou-lhe que informasse a seus irmãos seu estado de saúde e dissesse que ele precisava muito vê-los e pedir perdão, Camila nada disse, mas não poderia dizer nada mesmo que o quisesse, ela simplesmente assentiu com a cabeça, levantou-se e foi embora.
Mais dias se passaram e ele não teve noticias nem de Camila e muito menos de seus outros filhos.
- Ele está definhando! - disse a enfermeira ao doutor
- Não há mais nada que possamos fazer por ele. - disse o médico - Mas é uma pena! Tantos dias e nenhuma visita!
No dia seguinte ele acordou e constatou tristemente que continuava sozinho, voltou a pensar em tudo o que fizera e não fizera, como se arrependia de não ter dado o amor que seus filhos mereciam, de ter sido fraco e covarde, de não ter enfrentado a vida como ela deve ser enfrentada, de ter-se escondido das pessoas que amava por ter vergonha de si mesmo, de tudo isso ele se lembrava e sofria com essas lembranças, e uma dor cresceu em seu peito a ponto de não deixá-lo respirar, ele só conseguia pensar em seus erros e de como o fim se aproximava...
Ele morreu naquela manhã antes do meio dia. A direção do hospital informou a camila o acontecido, houve o enterro e apenas Camila e seus filhos estavam presentes. Ela ligara diversas vezes para seus outros irmãos, deixou recados e não obteve nenhuma resposta, nem mesmo Betina a preferida de seu pai, e a que mais se parecia com ele, encontrou tempo para ir ao seu enterro.

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